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sábado, 27 de agosto de 2011

Quilombolas mostram sofrimento além da tragédia na BR-122

Uma semana após acidente que matou oito remanescentes de escravos no Norte de Minas, moradores de comunidades revelam que sofrimento se somou ao desemprego, seca e pobreza.
Mortos em acidente com grupo quilombola também eram vítimas da pobreza, da seca e do desemprego.
Catuti – Os moradores de Barreiro Branco, distrito de Catuti, no Norte de Minas, celebram nesta sexta-feira uma missa de sétimo dia em homenagem às nove pessoas que morreram no acidente com uma van no último sábado na BR-122, em Janaúba. Oito eram integrantes de um grupo de danças folclóricas formado pelas comunidades quilombolas do Vale do Rio Gorutuba e um era o motorista do veículo. Eles estavam a caminho de Montes Claros e iriam se apresentar nas Festas de Agosto. Na semana seguinte à tragédia, o Estado de Minas percorreu a região onde vivem os remanescentes de escravos e constatou que o sofrimento se somou aos problemas vividos por um povo acostumado com a pobreza, a seca e a falta de emprego.
Sem colheita
Jorge Antunes perdeu o pai no acidente e mostra o prejuízo que teve com a seca deste ano. 
São cerca de 5 mil pessoas, ou 750 famílias, espalhadas por 31 comunidades rurais localizadas às margens dos rios Gorutuba, Serra Branca e Ramalhudo, numa região de confluência entre seis municípios: Catuti, Gameleira, Janaúba, Jaíba, Monte Azul e Pai Pedro. A seca, para Jorge Antunes Barbosa, de 48 anos, morador de Malhada Grande, é um castigo imposto aos quilombolas e a outras milhares de pessoas do Norte do estado. Ele relata que no fim do ano passado fez uma roça. Plantou 1 hectare de milho e feijão. “Na hora de a roça vingar, faltou chuva e não colhi praticamente nada”, lamenta o pequeno agricultor, cujo pai, Porcílio Antunes Barbosa, de 73 anos, morreu no acidente de semana passada. 
Posto de saúde está pronto, mas faltam equipamentos para funcionar.
Simão de Souza, de 70 anos, quilombola da comunidade de Santa Rita, perto de Malhada Grande, conta que viveu o mesmo drama da estiagem. Ele disse que fez o plantio de meio hectare, mas não conseguiu colher nada de milho e apenas três sacos de feijão. “Era para ter colhido pelo menos uns dez”, lamenta. Simão ainda consegue se lembrar de uma época em que havia fartura de água na região. “Existiam muitos brejos onde a gente plantava arroz. Hoje, água pra valer mesmo só existe na época das chuvas”, descreve o morador.
Mas não é só a seca que leva tristeza aos quilombos do Norte de Minas. Eles também convivem com a ausência de serviços públicos. Em Malhada Grande, por exemplo, um prédio seminovo, mas abandonado, evidencia o problema. A construção foi concluída em 2008 e seria destinada a um posto de saúde que nunca funcionou, por falta de equipamentos. De acordo com os moradores, existem prédios que seriam para a saúde pública que estão ociosos em cinco localidades de Catuti. A prefeitura da cidade, conforme os habitantes, alega falta de recursos para a compra de materiais que colocariam as unidades em funcionamento.
Longe do SUS
Enquanto a saúde não vem, os obstáculos para chegar até ela são grandes. O atendimento só é oferecido diariamente na sede do município, que fica a 34 quilômetros das comunidades. Francelina Corrêa de Souza, casada com Jorge Antunes, com quem tem quatro filhos, reclama que precisou ir até a cidade em busca de tratamento dentário. “Fui lá duas vezes, mas só consegui arrancar um dente”, conta Francelina, mostrando os dentes estragados.
Sem serviços básicos, os moradores das comunidades optam por buscar uma vida melhor na cidade grande. E o destino escolhido pela maioria é São Paulo. Rufino Fernandes dos Reis, que mora em Barreiro Branco, conta que seus três filhos, Ailso, Alenilso e Roseli, foram para a capital paulista em busca de emprego. “Eles tiveram que sair porque aqui não dá para ficar”, disse. A mulher de Rufino estava na van que bateu na rodovia e escapou ilesa. Mas perdeu o pai, Mariano Matos da Silva, de 68, na tragédia.
Sofrimento em um lugar e no outro também. Roseli, de 26, filha de Rufino, trabalha como atendente de uma lanchonete na capital paulista e conta que todos os dias acorda às 4h30, pega dois ônibus até chegar ao serviço, onde tem que bater cartão por volta de 7h. Só retorna para casa, na Zona Leste, às 20h. “Se eu pudesse, iria continuar morando com meus pais, mas não tem emprego na região”, afirma. Elciene Antunes Silva, de 26, é outra jovem da comunidade quilombola que foi procurar trabalho em São Paulo. Ela também conseguiu emprego em uma lanchonete e trabalha entre as 20h e a 1h. Solteira e mãe de um filho de 1 ano, ela chegou a iniciar o curso de pedagogia em Montes Claros, mas trancou por falta de dinheiro. Tanto ela quanto Roseli voltaram à terra natal para sepultar os parentes.
Grupo folclórico próximo do fim
Mariano Matos da Silva, de 68 anos, era pai de nove filhos e líder dos quilombolas de Barreiro Branco. Era ele quem chefiava o grupo de danças folclóricas da comunidade, que, após as mortes, deve acabar. Elcimar Antunes da Silva, filha de Mariano, diz que agora não há mais estímulo para continuar. Com 12 integrantes, o grupo mostrava religiosidade e rituais de origem africana por meio de dança batuque, cantos e sapateados nas festas das cidades vizinhas, especialmente nos dias dos Santos Reis, em 6 de janeiro, São Pedro, em 29 de junho, e São Lourenço, em 10 de agosto. Na última semana, eles iam se apresentar pela quarta vez nas Festas de Agosto de Montes Claros.
Com o possível fim do grupo folclórico, os quilombolas tendem também a perder a força de reivindicação. “O grupo de batuque vítima do trágico acidente, tendo à frente o senhor Mariano, uma das principais lideranças do povo gorutubano, promovia com suas apresentações a visibilidade da comunidade e tinha como propósito a garantia dos direitos da comunidade quilombola, sobretudo os direitos territoriais”, avalia Aderbal Costa Filho, antropólogo que fez um doutorado sobre o povo gorutubano na Universidade de Brasília (UnB), em 2008.
Além da preservação da cultura, Mariano tentava buscar melhorias para um povo que, de acordo com os estudos do professor Aderval Costa, a partir da década de 1950 passou a viver confinado, com grande parte de suas terras tomadas por grileiros. Estima-se que as comunidades do Vale do Gorutuba ocupem cerca de 47 mil hectares, mas apenas 3% deste total estão com os quilombolas. O restante está com fazendeiros, sitiantes e especulares. Nas casas das famílias, a água consumida vem de cisternas de captação de água da chuva, um dos benefícios alcançados pelo antigo líder. “Mas até cesta básica ele arrumava para o pessoal daqui”, relata Germano Cardoso dos Anjos, de 62, também morador da região.
 
Saiba mais...
O que são quilombos
Os quilombos são locais que abrigavam escravos que fugiam dos senhores desde os primeiros tempos do período colonial. Hoje, essas comunidades, remanescentes da época da escravidão, existem em pelo menos 24 estados brasileiros. Quilombolas habitam o Norte de Minas Gerais desde meados do século 18. A história e a pobreza enfrentada pelo povo que se instalou em Gorutuba foi estudada em 2008 pelo antropólogo Aderval Costa Filho. A região, segundo ele, tem Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,54, inferior ao Nordeste brasileiro - 0,548, sendo uma das localidades mais pobres do país.  O grupo folclórico envolvido no acidente contava com moradores da região de Barreiro Branco e de Malhada Grande, em Catuti. No mesmo local, outra tradição é preservada: o trabalho em um antigo tear, onde se produzem cobertores de algodão de forma artesanal, como mostra Avelina Antunes.
Luiz Ribeiro, no Estado de Minas

sábado, 20 de agosto de 2011

Acidente na MG 122 faz nove vitimas

Van doada pelo governo estadual para transporte escolar utilizada indevidamente.
Segundo o Corpo de Bombeiros, o veículo capotou próximo ao trevo de Caçarema; outras onze pessoas ficaram feridas
Segundo o cabo Cosme Ribeiro do Corpo de Bombeiros de Janaúba, uma van que transportava um grupo de quilombolas de Catuti para a Festa de Agosto, em Montes Claros, capotou várias vezes próximo ao trevo de Caçarema, distrito de Capitão Enéas.
O acidente ocorreu por volta das 14h30 na altura do km 167 da rodovia MGC122, um trecho em linha reta próximo ao posto Caititu.Três viaturas do Corpo de Bombeiros de Janaúba e uma do Samu foram deslocadas para o resgate das vítimas.
O veiculo, uma van de transporte escolar com placa da prefeitura de Catuti tem capacidade para transportar 16 pessoas, mas tinham 20 na hora do acidente.
Testemunhas contaram que uma das rodas van se soltou, fazendo com que o motorista perdesse o controle da direção do veículo, capotasse diversas vezes e parou após bater contra uma árvore às margens da estrada,deixando nove mortos, entre eles o motorista, e onze feridos. O Corpo de Bombeiros encontrou um pneu estourado no local do acidente.
Com o impacto a porta lateral foi arrancada e algumas das vítimas foram arremessadas para fora do veículo, indicando que não estariam usando o cinto de segurança. A distância entre o primeiro e o último corpo encontrado foi de 30 metros.
Prefeito mente á reportagem da televisão.
Os passageiros são pessoas da comunidade de Maravilha e Malhada Grande, povoados quilombolas do município de Catuti, que se encaminhavam para Montes Claros onde o grupo de quilombolas fariam apresentação nas festas de agosto.
A Van saiu da prefeitura da cidade e foi até as comunidades apanhar os passageiros, e por volta das nove horas da manhã estava de volta ao pátio da prefeitura, onde os passageiros fizeram lanche servidos por moradores da cidade. Segundo sobreviventes, ainda em Catuti um pneu estourou e a viagem sofreu atraso para trocar o pneu.
Segundo testemunhas, o prefeito Helio Pinheiro se encontrava na prefeitura quando a Van retornou da zona rural e chegou a cumprimentar alguns viajantes, contrariando ao que ele disse a reportagem da Intertv. Na entrevista o prefeito nega que tinha conhecimento da superlotação da Van e que ela estava autorizada a apenas recolher os viajantes nas comunidades. Todos sabiam que a mesma estava escalada a fazer a viagem até Montes Claros.
Os motoristas da prefeitura reclamam da manutenção dos veículos e sempre alertaram para o perigo das viagens com carros e ônibus com pneus velhos e até mesmo sem freio, dentre outros defeitos. No ano passado o secretario de transporte foi afastado porque se negara a liberar veículos defeituosos para transporte de estudantes e de populares.
Esmagados e mutilados
Corpo de vitima esmagado pela van.
Segundo a Polícia Militar Rodoviária (PMRv), um dos corpos foi arremessado na via e o veículo parou sobre ele. Das nove pessoas que morreram no local do acidente, apenas três haviam sido identificadas até as 17h30. São elas Mariano Matos da Silva, de 68 anos, Alberto Arisoseres dos Santos, de 51, Aristides Fernandes de Souza, 53. O motorista, que também morreu no local, só havia sido identificado pelo primeiro nome, Sinvaldo. Entre os cinco corpos não identificados, três são do sexo masculino e outros dois do sexo feminino, alguns perderam membros no violento acidente.
Ainda segundo a PMRv, as onze pessoas feridas, entre elas algumas em estado grave, foram levadas para o Hospital Regional de Janaúba, localizado a cerca de 50 km do local do acidente.O hospital não divulgou os nomes dos feridos, alguns com fraturas e outros com escoriações.
Uma criança de 2 anos que também estava no veículo saiu ilesa.
Corpos amontoados
Segundo pessoas que se encontravam no local no termino do resgate os corpos liberados pela policia foram amontoados em um carro funerário e encaminhados a cidade de Porteirinha. A cena dantesca chocou as pessoas, um carro funerário cheio de corpos, alguns mutilados, amontoados em sua traseira.
O cortejo funesto cruzou a cidade de Janaúba, rumo a Porteirinha, porque a prefeitura não tem convenio com empresa funerária de Janaúba.
Fotos - Danilo Evangelista EM